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Crônica de casa

Por Pedro Fernandes

só fui entender o que foi a experiência de ter minha primeira casa - que organizei na maior parte das vezes de um jeito que quis ou em acordo com minha room mate, onde por 3 anos fui escandalosamente feliz ao lado do meu amor e dos meus amigos mais queridos - depois que comecei a desmontar tudo. precisamente quando encaixotei os dvds de friends. aí fiquei sentimental e chorei um pouquinho.

só pra esclarecer: eu choro com tudo. sabe aquela matéria que passa no final do JN, para dar um pouco de esperança para esse meu brasil, sobre uma orquestra de crianças sertanejas que fizeram seus instrumentos com sisal e palha de ouricuri? É só elas tocarem asa branca e a câmera ir fundo no olho de um dos guris que eu choro.

nunca saí de uma casa sem derramar um tico de lágrima. então sei que vai ficar tudo bem e é só questão de tempo para que eu me apegue novamente. mas agora, aqui no acampamento que se tornou meu quarto, no meio de uma casa praticamente vazia, o sentimento não é bem esse. é o de perda de uma referência, de um lugar para onde eu sempre podia voltar.


quando meus pais venderam a casa onde cresci, depois que os filhos todos foram embora, me senti exatamente como estou agora. em negação, levei anos para poder ter coragem de passar na minha "rua-natal" e ver o crime que a nova moradora cometeu em sua reforma. crime contra my own private patrimônio histórico. foi muito triste quando minha casa não me reconheceu.

agora estou aqui dramando no meio de um apartamento vazio, morrendo de medo que um dia ele também esqueça de mim.

Pedro Fernandes é jornalista, tem quase 30 e mora em Salvador. E pra agradecer esse retrato emocionado e emocionante, que ele escreveu pra gente, você, junto comigo vai deixar um comentário aqui, não vai?