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CENOFOBIA

Outro dia o João me mostrou um desenho, e balbuciei "horror vacui". Como criança não deixa passar, ele me perguntou o que eu tava dizendo. E tentei explicar.

Horror vacui (‘medo do vazio’) é o preenchimento de toda a superfície, seja com matéria, desenho, pintura ou objetos. Então é uma forma de pintar, de desenhar, de decorar, e até de se vestir. É também um princípio filosófico, que gerou uma ideia científica pueril de que 'a natureza tem horror ao vazio', que só foi desmentida por Galileu.

"O imortal Galileu, patrão de Torricelli, sugeriu ao seu assistente que investigasse o motivo pelo qual as bombas de água eram incapazes de elevar o líquido a mais de dez metros acima do seu nível natural. Isso é que eram bons tempos. A ciência chamava-se filosofia, Aristóteles imperava e a natureza tinha horror ao vazio. A posição de Galileu era puramente aristotélica: as bombas criam um vazio parcial acima da água e a água precipita-se para o preencher. O vazio suga. Evidentemente, porém, a capacidade de sugar do vazio tinha limites — cerca de dez metros."

Muita gente tem horror vacui. Ou como diz meu amigo João (outro João), síndrome de parede vazia. Alguns até demais. Eu adoro uma parede cheia. Mas acho que o bacana mesmo é o equilíbrio: nem tanto ao minimalismo, nem tanto à cenofobia. Nossa memorabilia faz com que lembremos de quem somos, do que gostamos, de quem sentimos falta, e de como podemos ser felizes. (Quem não se emociona, vez ou outra, de súbito, ao olhar uma foto que está sempre na parede? Ou não deixa escapulir um sorriso ao re-perceber um objeto trazido de viagem, e até sentir a brisa de alhures?)
Mas é importante que todo o nosso tesouro não nos faça lembrar de como o chão é perto, não nos faça tropeçar, não nos atravanque a casa. Até a natureza respeita o limite de 10m. Ou algo assim.

Imagens Poppytalk e DesignSponge. Excerto De rerum natura.