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Tutoriais:

TUTORIAL

Mas terá suítes #2


Por Carolina Mendes

Escuta, eu sei que muitos de vocês se aborreceram com os meus palavrões no texto dos sofás.


Gente, relaxa. Tá tudo bem.

Não pretendo de maneira nenhuma afetar o prestígio da classe dos arquitetos e designers de interiores, a idéia é aguçar o senso crítico pra questões que estão a nossa volta. Menos, meu povo. Beeeeem menos radicalismo. Vamos descontrair.



Estive pensando sobre que tema abordar nesse segundo texto. Todas as casas que eu visitei, todos os restaurantes, todas as lojas. Olhei revistas. Fiquei por aí procurando temas e coisas que irritam. Descobri que assunto não vai faltar.

Descobri outro dia que a nova onda (nem sei se tão nova assim), é fazer a tal "cozinha gourmet". Pra quem não sabe, é a boa e velha cozinha americana, aberta pra sala, em que os ambientes se fundem. Logo vem na imaginação aquela trilha sonora descolada, jeito brazillian cool, da Astrud Gilberto. Amigos bem sucedidos conversam, enquanto o anfitrião cozinha. Cozinha, sei lá, um belo risotto, e bebem um bom vinho.

Tudo muito bacana, tudo muito yuppie, tudo muito envolvente, tudo podendo dar errado. Porque a realidade normalmente passa bem longe do idealizado.

Semana passada fui num jantar na casa de amigos de amigos, que têm uma cozinha assim. Num apartamento de 2 palmos quadrados. Entendo que existe uma necessidade real de ampliar um apartamento de 2 palmos quadrados. Mas acho que se essa foi sua opção, bora investir num exaustor, ou evitar fritura. Juro, fritaram linguiça como se não houvesse amanhã. Bom senso, pelamor de deus. Saí tão defumada que quase passei mostarda ao invés de hidratante quando cheguei em casa.

Sorte que o frio já chegou em São Paulo.



Pequenos espaços. Pelo crescimento populacional, pelo capitalismo atraindo as pessoas pros grandes centros urbanos, pelo cada vez mais alto preço do metro quadrado.

Sei que essa coisa do achatamento do pé direito, e da redução dos espaços muito me interessa. Meu nome é Carolina e eu aceito folhetos de lançamentos imobiliários. Porque eu estou procurando um imóvel? Não. Pra tentar entender mesmo.


Gosto de observar as plantas, ilustrações, projetos e localização. Não me processem construtoras, sou apenas uma neurótica, em um blog, que tem uma enorme capacidade de observação. Adoro ver as ilustrações, os prédios majestosos em terrenos espaçosos, idílicos carrinhos vermelhos, azuis, verdes… Pessoinhas passeando em pares por bairros arborizados, belos gramados e lindas praças. Pena que a ilustração é meramente ilustrativa. O prédio é o que imaginam que vá aparentar quando pronto. A vizinhança foi transformada em um parque/campo de golfe pra disfarçar a realidade cinza, espremida e deprimente.

Você, ali, vai morar mal. Mas terá suítes.

Ter suítes é status. Cada filho na sua. Menininha não vai aprender a recolher cabelos do chão, menininho não vai aprender a vigiar o pipi pra acertar o vaso.

TRINTA metros de área privativa, 3 vagas, 3 suítes.

Entenda, seus carros moram melhor que você. Nada contra, mas é essa a realidade. Ok senhor arquiteto, cabe. Cabem os 3 quartos e 3 banheiros, mas onde estas 3 pessoas vão cozinhar? As salas hoje mal acomodam um sofá. As cozinhas planejadas, logo vão ter que planejar uma invasão ao apartamento do lado.

Temo pela duração da sociedade conjugal dos recém casados, espremidos entre caixas e pacotes de presentes…

Engraçado que os apartamentos encolhem, e assim como o número de vagas, as TVs aumentam. Não existe mais quem ache que 20 polegadas é um tamanho razoável. Telas enormes, e os donos sentados a 1,5m de distância, com os olhos vidrados e o home theater bombando. Ver um filme virou uma experiência de ruídos, explosões, ângulos, idiomas.

E os aparelhos de som? O espaço encolhendo, a qualidade da música que se produz despencando e os aparelhos de som cada dia mais potentes.

Me espanta também como qualquer ponto de São Paulo é “próximo a Marginal Pinheiros”. Parece que o conceito de proximidade é bastante relativo. Concordo que globalmente 24km não é lá muita coisa. Mas pensando em cidade, acho que é muito otimismo dizer que seu lançamento fica próximo da marginal.

Olhos abertos, caros leitores. Olhos bem abertos.

Viram? Nenhum palavrão (desta vez <3).

 ♥ Carolina Mendes é paulistana, escritora e implicante.
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