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Tutoriais:

TUTORIAL

Showroom #8


Por Carolina Mendes

Eu visito as casas das pessoas e a impressão que eu tenho é que foi tudo comprado em um catálogo da Tok Stok. Até casa de rico tem tudo o mesmo jeitão, só melhora o nivel do catálogo. Padronizou. Tipo nariz de plástica: existem 8 modelos de casa, que variam de acordo com a classe social, sendo que cada classe tem 2 opções de decoração: bege/branco/cinza/fendi e colorido.

Já comentei aqui que trabalhei durante muitos anos em uma galeria de arte? Pois trabalhei. Coisa mais comum era chegar a cliente toda pintosa, de bolsa de milhares de reais e relógio masculino (rica moderna usa relógio masculino), e começar o discurso:

- Oi, eu preciso de um quadro pro meu living. (Rico não tem sala, tem living.)
- Claro. E você tem alguma coisa em mente? Alguma idéia que te agrade? Me fala mais desse living...
- Então, eu fiz uma coisa bem bacana. Com bastante branco pra ter luminosidade. O sofá é fendi e os móveis são de madeira tabaco.
- Nossa que bacana. Deve ter ficado lindo.
- Eu acho que ficaria interessante jogar uma cor nos quadros.
- É uma boa ideia. E você gosta de quais cores?
- Ah, eu pensei em alguma coisa quente. Um vermelho.

AH MA CEMIJURA?

Cadê criatividade, gente? Não faz assim não, você é linda demais.


Quando você transforma sua casa num catálogo de decoração, você se equipara a amiga dona de casa que compra um conjunto de estofados Astúrias, 2 e 3 lugares + rack + conjunto de jantar Veneza. Pelo simples fato que esmaga qualquer traço de personalidade (estamos supondo que você tenha personalidade), e privilegia pressa, funcionalidade e status.

Dica: não precisa gastar grana com arquieto badalado. Compra uma revista qualquer, vá numa loja de decoração qualquer e pronto: casa de bacana pra impressionar a cunhada.

Isso sem contar a febre por móveis planejados. Sua casa direto da marcenaria com gavetas e portinholas em todos os cantos possíveis e imagináveis. Tô vendo o dia em que o raciocínio "conjunto de moletom sob medida" vai chegar no extremo das pessoas voltarem aos malditos móveis de alvenaria. PAVOR de móveis de alvenaria. Pavor de tudo que era pra ser "móvel" e não sai do lugar.

Ai, não sei o que é pior. Acho que prefiro os móveis daquela loja da propaganda gritada, que são desenvolvidos pra anatomia alienígena. Tudo anatomicamente incorreto.

Anos atrás, quando você ia ao McDonalds, depois de pedir tudo que queria, a mocinha do caixa perguntava: sundae acompanha?

(Um parênteses: só eu reparei que todas as atendentes do Mc tem bigode? Ok, não são todas. Mas enorme maioria. Será que é alguma coisa na comida? Outra: já perceberam que o funcionário do mês nunca está na loja pra te atender? Podem tentar chegar no Mc mais próximo e pedirem pra serem atendidos pelo funcionário do mês.)

Talvez a nossa vida tenha virado isso, um objeto de desejo que quando se conquista nos leva a outra fonte de cobiça, e mesmo a gente tendo entrado no Mc pra comer só um cheddar, sai com um número e mais a tranqueira do Sundae. Só que é um conjuntinho de vime e um cachepot vitrificado pra colocar a orquídea branca no móvel da sala.

CA-FO-NA.

Carolina Mendes é paulistana, escritora e implicante.
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